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A batalha pelos recursos naturais da Groenlândia

Sara Moraca
10 de abril de 2021

Os recursos naturais da região, como as terras raras, entram cada vez mais no radar da cobiça de empresas, e seus habitantes lutam para conciliar crescimento econômico com proteção ambiental.

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Cidade de Tasiilaq, na Groenlândia
Cidade de Tasiilaq, na GroenlândiaFoto: Reuters/L. Jackson

A fazendeira de terceira geração Naasu Lund examina suas terras, o silêncio é interrompido apenas por um vento forte e os berros das ovelhas pastando. Sua fazenda, localizada perto da cidade de Narsaq, no sul da Groenlândia, está a apenas sete quilômetros de uma mina de urânio e terras raras.

Ela temia que a natureza ao redor e sua fazenda, que também hospeda turistas desejosos de desfrutar da paisagem intocada da Groenlândia, estivessem ameaçadas. Mas pode dar um suspiro de alívio: a proposta de exploração da mina foi suspensa, pelo menos por enquanto.

"Somos os guardiões desta terra e nos consideramos parte da natureza", afirma Lund. "Temos agora a oportunidade de desenvolvê-la da forma que consideramos justa."

A possibilidade de exploração da mina de Kvanefjeld se tornou um ponto crítico das eleições na Groenlândia em abril e derrubou o partido pró-mineração Siumut, no poder quase de forma ininterrupta desde 1979, quando o território obteve autonomia da Dinamarca.

Agora, o partido pró-independência Inuit Ataqatigiit (IA) é o maior da Groenlândia, após lançar uma plataforma verde e antimineração. Ele prometeu que o projeto Kvanefjeld não seguirá adiante, embora deva primeiro entrar em negociações de coalizão com outros partidos, incluindo o Siumut.

A controvérsia sobre a mina revela o cisma na ilha sobre o equilíbrio do desenvolvimento econômico com a proteção do ambiente intocado do Ártico. E o debate esquentou nos últimos anos, à medida que o aquecimento global derrete a camada de gelo da Groenlândia e revela os ricos recursos minerais, petróleo e gás que estão atraindo o interesse de países como China e Estados Unidos.

"Terras raras podem atrair muitos países, mas a China detém o monopólio da tecnologia e da mão de obra qualificada necessária para os processos de extração", observa Jesper Willaing Zeuthen, professor da Universidade de Aalborg, em Copenhague, e especialista em relações Ártico-China.

Membros do partido Inuit Ataqatigiit comemoram após vencer eleições antecipadas com uma plataforma ambiental e antimina
Membros do partido Inuit Ataqatigiit comemoram após vencer eleições antecipadas com uma plataforma ambiental e antimineraçãoFoto: Emil Helms/Ritzau Scanpix/AP/picture alliance

Meio ambiente versus desenvolvimento

Kvanefjeld abriga uma das maiores jazidas do mundo ainda não exploradas de terras raras fora da China. Dezessete elementos – incluindo escândio e ítrio, que jazem no subsolo profundo – são utilizados em tudo, desde celulares e turbinas eólicas a carros elétricos. Os defensores da mineração afirmam que explorá-los geraria grande benefício financeiro para a Groenlândia.

A empresa australiana Greenland Minerals Limited (GML), que desenvolve a mina, afirma que o país receberia anualmente 240 milhões de dólares em impostos e royalties ao longo dos 37 anos de vida útil da mina. A maior acionista da GML é a Shenghe Resources Holding, uma empresa chinesa de processamento de terras raras.

Para uma economia amplamente dependente da pesca, do turismo e de um subsídio anual de 600 milhões de dólares da Dinamarca, a exploração de recursos é vista como uma forma de incrementar os cofres do governo e proporcionar um caminho para a independência.

Pesquisas indicam que a população apoia a separação da ilha da Dinamarca. Numa sondagem realizada em 2018 pela Universidade de Copenhague, cerca de 67% dos entrevistados disseram apoiar a independência da Groenlândia em algum momento no futuro.

"Não temos certeza se o projeto da mina Kvanefjeld algum dia será realizado", conta Mikaa Mered, professor de assuntos árticos na Escola de Negócios HEC, em Paris. "Se o partido Siumut retornar ao poder no futuro, as minas de urânio poderão ser usadas na luta pela independência."

Mas os oponentes de Kvanefjeld rebatem que os argumentos econômicos são exagerados, que a exploração da mina não trará empregos já que a experiência para desenvolver e processar os minerais é inexistente na ilha de 56 mil habitantes. Além disso, a ameaça potencial ao ecossistema intacto da ilha estaria sendo subestimada.

"Normalmente, a população local não ganha dinheiro com as minas como prometido no início, mas depois da mineração ela ficam com as terras poluídas", frisa, baseada em projetos similares em todo o mundo, Mariane Paviasen, representante do partido Inuit Ataqatigiit no parlamento da vila de Narsaq que faz campanha contra a mina desde 2013.

A grande população inuíte de Narsaq teme que a poeira de urânio e outros subprodutos radioativos se espalhem pela paisagem. Os moradores e ambientalistas, incluindo a organização Friends of the Earth, da Dinamarca, se preocupam com a contaminação do solo, água e vida marinha pelos resíduos da mineração. A pesca é uma das principais indústrias da cidade.

Vila de Narsaq, na Groenlândia
Residentes da pitoresca vila de Narsaq estavam preocupados com a poluição da água, do ar e do solo pela mina propostaFoto: Roberto Coletti

"Nossa vida depende do mar", explica Ole Jorgen Davidsen, pescador e membro da KNAPK, a associação de pescadores do país. "Nosso patrimônio cultural, nossa economia e até mesmo nosso lazer estão ligados ao lugar onde vivemos. A pesca é o meio de subsistência da maioria das famílias daqui."

A empresa GML se recusou a comentar sobre o resultado eleitoral e o que isso significaria para o projeto, mas antes das eleições Jorn Skov Nielsen, gerente executivo da empresa, assegurou à DW que fizera avaliações ambientais e de segurança robustas: "A GML utilizou especialistas mundiais em todas as áreas de risco ambiental possíveis do projeto para determinar os impactos."

Caminho verde para a independência?

Para Lili Rastad Bjørst, professora de ciências sociais da Universidade de Aalborg, o sucesso eleitoral do partido IA é indicativo da importância do meio ambiente para a identidade dos groenlandeses e da marca da colonização dinamarquesa deixada nas comunidades inuítes na ilha. Cerca de 88% da população do país é inuíte ou dinamarquesa-inuíte.

Bjørst, que tem trabalhado com a comunidade de Narsaq desde 2013, conta que os residentes se sentiam como "espectadores do projeto de desenvolvimento", assim como as comunidades inuítes estiveram durante os quase 300 anos de desenvolvimento no país sob o domínio direto dinamarquês, que se estendeu do início do século 18 a 1979.

O partido IA, afirma, quer alcançar a independência ao longo do tempo, permitindo que a Groenlândia cresça economicamente e melhore seus meios de subsistência com "respeito pelo meio ambiente".

Isso poderia incluir a melhoria da produção agrícola da ilha "para reduzir a nossa pegada ecológica ligada ao transporte, e buscar formas alternativas de independência", segundo a deputada Paviansen. O país agora depende amplamente da importação de alimentos. Com o aquecimento do Ártico duas vezes mais rápido do que no resto do mundo, a legenda também se comprometeu a assinar o Acordo de Paris.

Ainda assim, uma pesquisa anterior às eleições, realizada pelo jornal local Sermitsiaq, mostrou que, enquanto 63% dos entrevistados eram contra o projeto de mineração Kvanefjeld, apenas 29% eram contra a mineração em geral.

E como a mudança climática continua tornando os recursos naturais da Groenlândia mais acessíveis e atraindo mais interesse internacional, os groenlandeses terão que continuar buscando o equilíbrio entre o desenvolvimento econômico e a proteção ambiental.

"O partido IA não quer a mineração de urânio, mas não descartou atividades de mineração envolvendo zinco e ouro", relata o professor Mikaa Mered. "Isso pode fazer parte do plano de desenvolvimento da Groenlândia que ainda não foi apresentado pelo partido."