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Censura permanece tabu em Frankfurt

Mona Naggar/Qantara.de/(rr)7 de outubro de 2004

Os países árabes apresentam-se com um ousado programa na Feira de Frankfurt. Mais de 150 autores foram convidados. Mas temas essenciais, como a censura no mercado editorial árabe, escaparam de qualquer menção.

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Autores árabes pleiteiam há tempos a criação de um fundo para traduçõesFoto: dpa

Relatórios das Nações Unidas salientam freqüentemente – e com razão – a "catástrofe do ensino" nos países árabes. Mesmo assim, a região tem muitos escritores renomados que, no entanto, permanecem praticamente desconhecidos no Ocidente e, também, na Alemanha. Dos cerca de 120 mil títulos literários disponíveis no mercado alemão, apenas 500 são de autores árabes.

São só grandes autores, como o egípcio Nagib Mahfuz, vencedor do Prêmio Nobel de Literatura de 1988, e o marroquino radicado na França Tahar Ben Jelloun, que desfrutam do conhecimento do grande público. Neste ano, a Feira do Livro de Frankfurt pretende mudar isso e, ao mesmo tempo, promover a literatura ocidental no mundo árabe.

Marrocos critica organização

Nos últimos meses, não faltaram críticas à participação da Liga dos Países Árabes na organização da feira. Entre elas, as mais duras vieram recentemente do ministro da Cultura do Marrocos, o poeta Muhammad al-Ashari, que considera incompreensível o fato de os países árabes – ao todo, 22 nações heterogêneas – terem sido convidados como um bloco único.

O ministro marroquino criticou, além disso, o número desproporcional de escritores egípcios, a ausência de autores não-islâmicos e de representantes de culturas não-arábes, bem como a falta de escritores exilados na feira. Ao lado de Kuweit, Líbia, Argélia e Iraque, o Marrocos pertence ao grupo de países que negaram o convite da organização.

Problemas centrais negligenciados

O programa apresentado pela Liga dos Países Árabes em junho é bem diversificado, englobando poesia e prosa, música e cinema, folclore e debates sobre globalização, direitos humanos e reformas nos países árabes.

Assia Djebar
A escritora argelina Assia Djebar é uma das convidadasFoto: AP

Cerca de 150 autores foram convidados, entre eles diversos famosos como os poetas Adonis (Síria) e Mahmoud Darwish (Palestina), os francófonos Assia Djebar (Argélia) e Amin Maalouf (Líbano), mas também desconhecidos na Alemanha, como os escritores sauditas Raja Alim e Abdul Khal.

A princípio, a organização procurou divulgar idéias positivas, por exemplo, sobre a disposição dos países árabes de dialogar abertamente com o Ocidente e de esclarecer diversas outras questões polêmicas. Mas problemas centrais como a miséria do mercado livreiro árabe não foram nem mesmo mencionados.

"Nossas sociedades precisam de proteção"

Outro exemplo significativo é a questão da censura presente em todo o mundo árabe. O diretor da Feira do Livro de Mascate, em Omã, Muhammad Ali Hassan, justifica a censura como um mecanismo de prevenção da herança cultura árabe. "Tudo o que ataque a sociedade árabe e provoque agitação deve ser proibido. Nossas sociedades precisam de proteção", argumenta.

Embora essa seja uma mentalidade típica entre organizadores de feiras do livro em países árabes, o tema censura nem consta do programa da feira de Frankfurt. Pelo contrário: Ibrahim al-Muallim, presidente da Federação Árabe de Editores, chegou até a argumentar que os países árabes teriam feito grandes progressos na luta contra a censura.

Bundeskanzler Gerhard Schröder spricht auf der Buchmesse 2004
O chanceler federal Gerhard Schröder discursa na abertura da feira na terça (05/10)Foto: dpa

O editor libanês Khalid Qubaia, ele próprio membro da federação, falou abertamente sobre o modo de sua editora lidar com a censura: "Os parâmetros de censura dos países árabes são outros. A Federação Árabe de Editores aceita dois motivos: se um livro fere a segurança de Estado ou se ele contraria a moral".

Autocrítica tardia

Jabir Asfur vê a coisa com outros olhos. O diretor do Alto Conselho Cultural egípcio elogiou os Estudos Orientais da Alemanha e os esforços do país para traduzir a literatura árabe. Asfur criticou até a si próprio. Segundo ele, nem a Liga dos Países Árabes, nem a Federação Árabe de Editores ou mesmo algum país sozinho teria tomado qualquer iniciativa para promover a tradução da literatura árabe.

Mas sua autocrítica vem tarde demais. De um lado, intelectuais árabes pleiteiam há tempos a criação de um fundo para incentivar a tradução. De outro, ainda há discussões até quanto aos títulos que deveriam fazer parte da lista de livros a traduzir para o inglês e o alemão, confeccionada no contexto da feira de Frankfurt.