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Holanda

30 de setembro de 2010

Mesmo ainda com futuro indefinido, atual cenário político da Holanda tem sido assunto de especulações: teme-se que o país seja precursor, no bloco europeu, de uma onda de alianças com a extrema direita xenófoba.

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Wilders: xenofobia explícitaFoto: Picture-Alliance /dpa

Dois dias após terem selado um acordo com a extrema direita antimuçulmana de Geert Wilders, os democrata-cristãos holandeses ainda poderão recuar. Líderes do partido mencionam "algumas reclamações" que podem impedir aliança.

Na madrugada desta quinta-feira (30/09), os parlamentares do Partido Democrata-Cristão decidiram aguardar a convenção que acontece neste sábado (02/10) para que seja tomada uma decisão a respeito da coalizão de governo envolvendo uma aliança com o populista de direita Geert Wilders. A convenção deverá reunir cerca de dois mil delegados na cidade de Arnheim.

Risco de cisão

O aval para uma coalizão entre democrata-cristãos e liberais, só viável com o apoio do partido de Wilders, esbarrou na resistência de pelo menos dois deputados entre os 21 democrata-cristãos no Parlamento em Haia.

Maxime Verhagen, líder da bancada democrata-cristã, mencionou "algumas reclamações" internas a respeito da aliança com Wilders. "Ao mesmo tempo, todos os 21 parlamentares estão de acordo que o voto na convenção terá muito peso", declarou Verhagen. Muitos membros do partido temem, contudo, que a colaboração com o partido de Wilders possa cindir a sociedade holandesa.

Depois de 111 dias de negociações, liberais de direita e democrata-cristãos haviam chegado a um acordo na última quarta-feira (29/09) a respeito da formação de um governo de minoria, após decidirem-se pela aliança com a facção antimuçulmana e populista de direita de Wilders.

"Acordo de tolerância"

Niederlande Politik Mark Rutte Maxime Verhagen Geert Wilders
Mark Rutte, líder do Partido Liberal (esq.), o democrata-cristão Maxime Verhagen (centro) e Geert Wilders (dir): negociaçõesFoto: picture-alliance/dpa

O "acordo de tolerância", a ser assinado por democrata-cristãos e liberais, prevê a participação do Partido pela Liberdade de Wilders em determinadas decisões políticas para as quais é necessária uma maioria absoluta no Parlamento. Juntos, os três partidos, porém, só chegam a 76 dos 150 votos, ou seja, apenas um voto garantindo a maioria.

Wilders ganha, segundo suas próprias palavras, "uma influência considerável sobre a política governamental". O populista de direita pode, em tese, até mesmo levar a um desmantelamento do governo e à convocação de novas eleições.

Polícia fortalecida

Segundo informações divulgadas pela mídia, caso essa coalizão seja mesmo concretizada, o novo governo tolerado pelo partido populista de direita pretende fortalecer o aparato policial no país e reduzir os gastos públicos em 16 bilhões de euros.

Outras propostas são a de fundir os ministérios da Justiça e da Segurança e reduzir a ajuda ao desenvolvimento para 0,7% do PIB do país.

A formação de um governo na Holanda vem fracassando desde junho último, quando, após as eleições, não foi possível o estabelecimento de uma maioria parlamentar.

Wilders defende um cessar completo da entrada de imigrantes provenientes de países muçulmanos na Holanda, além da proibição do alcorão, livro sagrado do islã, que Wilders comparou a Minha Luta, de Adolf Hitler.

Precursora de política islamofóbica

Na Alemanha, o diário berlinense taz, die tageszeitung escreveu na edição desta quinta-feira que "entre todos os populistas de direita que fazem campanha contra os muçulmanos, Geert Wilders é o mais extremo. [...] Com ele servindo de força-motriz à direita, a Holanda poderá se tornar, em toda a Europa, a precursora de uma política à qual o adjetivo islamofóbico se adéqua. Mas talvez o fantasma no país passe rápido. A frágil aliança dispõe apenas de um voto a mais no Parlamento. Resta esperar que não demore muito".

Proteste gegen Geert Wilders in London Flash-Galerie
Protestos em Londres contra visita de Wilders em março deste anoFoto: AP

"Até há pouco tempo, isso seria impensável em uma Holanda que se manteve durante décadas como um refúgio de posturas de vida liberais", lembra o semanário Der Spiegel. Segundo a revista, vários políticos alemães demonstraram séria desconfiança em relação ao pacto selado no país vizinho.

Alemães preocupados

Ruprecht Polenz, líder da Comissão de Política Externa no Parlamento alemão, afirmou à revista que "apesar das dificuldades de formação de governo na Holanda, Wilders e seu partido continuam sendo contrários à política democrata-cristã. Com sua islamofobia e seu populismo, em vez de unir, ele provoca uma cisão na sociedade", completou o deputado.

O social-democrata Rolf Mützenich assinalou que a tolerância a Wilders e sua política "enfraquecem os valores comuns europeus", enquanto o Partido Liberal apontou "uma situação difícil".

"Possivelmente o receio alemão perante a ascensão de Wilders no cenário holandês se dá em função da constatação de que, na própria Alemanha, parece existir um terreno fértil para um partido à direita dos democrata-cristãos", analisa o Der Spiegel, que escreve ainda que o exemplo holandês pode surtir efeitos em nível europeu.

SV/dpa/afp/rtr
Revisão: Roselaine Wandscheer