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África do Sul

10 de agosto de 2010

Desde que assumiu o governo, o presidente da África do Sul dá sinais de querer intensificar relações com as potências emergentes, com vista ao crescimento econômico e maior participação do país nos mercados globais.

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Jacob Zuma almeja aproximação com economias emergentesFoto: picture-alliance/dpa

Em visita oficial à Rússia na semana passada, o presidente da África do Sul, Jacob Zuma, encontrou-se com o colega de pasta russo, Dmitri Medvedev. O objetivo do encontro era analisar as possibilidades de troca de tecnologia espacial, solar, estabelecer parcerias econômicas e potencializar as relações turísticas entre os dois países.

Russland Südafrika Jacob Zuma Dmitry Medvedev
Medvedev e Zuma se encontraram em MoscouFoto: AP

"Com o objetivo de consolidar parcerias em nível cultural, educacional e de desenvolvimento, a visita ocorre no contexto do fortalecimento da cooperação norte-sul ", declarou Saul Molobi, porta-voz do governo sul-africano. Após o encontro na Rússia, a comitiva sul-africana visitará a China ainda no final de agosto.

Desde que assumiu o posto de presidente, em maio do ano passado, Zuma já esteve em outros países emergentes, como o Brasil e a Índia. Coincidência ou não, os quatro países formam o grupo de emergentes BRIC (Brasil, Rússia, Índia e China).

África do Sul: Relações com IBAS e BRIC

Paralelamente aos novos contatos, a maior economia do continente africano vem estreitando relações com seus parceiros do sul, no contexto do Fórum de Diálogo Índia-Brasil-África do Sul (IBAS). A cooperação trilateral foi estabelecida em 2003 com a Declaração de Brasília, cujo objetivo era estimular a cooperação nas áreas de agricultura, comércio internacional, cultura e defesa.

BRIC Treffen in Brasilia Brasilien
Medvedev, Lula, Hu Jintao e Manmohan Singh, líderes do BRIC, em BrasíliaFoto: AP

Em abril deste ano, os líderes dos três países se encontraram em Brasília na 4ª Cúpula de Chefes de Estado e de Governo do IBAS, evento que ocorreu paralelamente à 2ª Cúpula do BRIC. A oportunidade serviu também para que os sul-africanos se aproximassem das outras potências integrantes do bloco de emergentes, o BRIC.

Os dois grupos, apesar de possuírem alguns parceiros em comum, têm origem e objetivos diferentes, como explica Maria Izabel Mallmann, doutora em ciência política da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS).

"O IBAS é um foro de cooperação pouco propositivo em termos materiais, econômicos e comerciais, mas com mais iniciativas de cooperação do que o BRIC, que é um grupo de países cujo desempenho econômico mundial faz diferença, mas que não possui uma identidade comum, não resulta de uma iniciativa das partes", declarou Mallmann.

Já o professor Gilmar Masiero, da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da Universidade de São Paulo (USP) acredita que, caso a África do Sul concentre seu foco unicamente no BRIC, o fórum do IBAS pode perder importância: "O IBAS tem dinamizado as relações diplomáticas e comerciais entre os três países, mas até o momento, os possíveis ganhos se concentraram na área política, em um maior ativimismo das relações sul-sul. Pensar o envolvimento de outros membros dos BRIC, como China e Rússia, nesse eixo de discussões, me parece difícil e, se ocorresse, poderia levar a um esvaziamento do IBAS."

África do Sul e o Brasil

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Copa serviu para aproximar emergentesFoto: picture alliance/Photoshot

Nesse contexto de aproximação, as relações em particular com o Brasil se tornaram ainda mais sólidas. Durante a visita do presidente Luiz Inácio Lula da Silva à África do Sul, na Copa do Mundo, os dois líderes assinaram atas de parceria estratégica para estimular o comércio, as trocas e a cooperação sul-sul.

"A aproximação da África do Sul pode ser vista como um fator positivo por parte do Brasil, na medida em que signifique a adesão a esforços de atuação conjunta em foros multilaterais. Há aí uma dimensão mais política do que econômica", comenta a professora Mallmann.

O intercâmbio econômico entre os dois países ainda é relativamente discreto em comparação com outros países com os quais o Brasil possui parcerias. De acordo com o relatório do Ministério das Relações Exteriores, enquanto os setores automobilístico e agropecuário são os que mais exportam produtos para a África do Sul, o Brasil importa – em proporções bem menores que as exportações - principalmente ferro ou aço, combustíveis e pedras preciosas sul-africanas.

Em 2008, o Brasil movimentou, em relação à África do Sul, US$ 1,7 bilhão em exportações e US$ 774 milhões em importações enquanto, com a China, no mesmo período, as exportações chegaram à casa dos US$ 16 bilhões e as importações, US$ 20 bilhões.

A aproximação entre Brasil e África do Sul, na opinião do professor Masiero, dá-se em função de o IBAS ser um grupo pequeno de características similares. Em vez de almejar um comércio com parceiros já estabelecidos em outros mercados, como a Rússia, por exemplo, o professor acredita que as características em comum que a África do Sul possui com seus parceiros podem ajudar o país a ganhar importância dentro dos blocos onde já está inserido.

"O IBAS é um fórum mais dinâmico. Tem muito mais energia e diplomacia. O IBAS é mais promissor do que o próprio BRIC, ao meu juízo. Porque tem menos gente. É mais fácil conseguir um acordo entre três do que entre quatro ou entre 20. É sul-sul, uma ideologia antiga, mas que ainda tem seus seguidores. O nível de desenvolvimento econômico é mais ou menos igual entre os três países."

Estratégias de crescimento

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Desenvolvimento das relações com países vizinhos pode trazer crescimento econômicoFoto: picture alliance / dpa

Não é por acaso que durante este período relativamente curto no poder, o líder da maior economia do continente africano investiu nessas visitas. A ofensiva de crescimento das relações com os quatro países-membros do BRIC faz parte da estratégia do governo de Zuma de se aproximar do grupo e de estimular novos mercados e rotas de investimentos, substituindo os tradicionais da Europa.

Membros do partido Congresso Nacional Africano passaram a prestar mais atenção no sucesso das economias do BRIC, como prova de que o governo sul-africano deve fazer mais para estimular o crescimento do país. Desde o final do apartheid, em 1994, a política de mercado livre não vem sendo suficiente para estimular o crescimento econômico. Com uma previsão de crescimento de apenas 2,3% em 2010, a África do Sul localiza-se bem abaixo de China e Índia. Motivo pelo qual o BRIC não é "BRICAS".

"A participação no BRIC não é uma questão de escolha. Esse 'bloco' foi identificado em função da performance econômica dos países por uma agência internacional. A rigor, ele não deve ser identificado como bloco, já que o que conta é o desempenho individual dos países e não seu desempenho em grupo. Os países que fazem parte do BRIC - além de possuírem dimensões, localização e interesses bastante díspares - não atuaram no sentido de constituir um bloco", comenta a professora Mallmann.

Masiero afirma, por sua vez, que as pretensões da África do Sul são fundamentadas, mas ainda distantes de se tornarem viáveis em função do seu tímido desenvolvimento econômico. Antes de pensar em ser global, seria mais estratégico estabelecer relações regionais mais fortes, para fomentar a economia e tornar-se um líder regional nos olhos das demais potências, comenta.

"O sonho da África do Sul de querer fazer parte desse heterogêneo grupo é tão legítimo quanto as reivindicações sul-coreanas de querer participar do BRIC, ou também quanto à reivindicada participação do México ou da Turquia. Mas, o processo de regionalização é forte e contínuo. A África do Sul pode aproveitar uma maior inserção nos países vizinhos, que agora não estão mais em guerra. A paz é positiva para o progresso. Antes de a África do Sul olhar para coisas tão distantes como a Rússia, ela deve olhar prioritariamente para seus vizinhos", finalizou Masiero.

Autora: Julia Dócolas
Revisão: Carlos Albuquerque